''O QUE PODEMOS FAZER PARA QUERER FIRMEMENTE AQUILO QUE RECONHECEMOS SER O MELHOR PARA NÓS E PARA NOSSA ESPÉCIE?''

23 de nov de 2009

A Experimentação em Animais

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Todos já ouvimos falar que os testes com animais são necessários para o progresso da ciência, seja este progresso voltado para a medicina, para a cosmética, ou para fins militares. Atualmente, muitos apontam para o fato de que tais experimentos são desnecessários, duplicativos, muito custosos e por muitas vezes apontam para a direção errada. Enquanto muitos acreditam que a ciência pararia se os testes com animais não existissem, o fato é que métodos de pesquisa mais eficientes e fidedignos, e menos custos, existem, tais como estudos epidemiológicos, clínicos e in vitro.
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Qual é a Experiência do Experimentado?
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A estimativa é de que, somente nos Estados Unidos, de 20 a 70 milhões de animais (gatos, cachorros, primatas, coelhos, ratos, etc.) sofram e morram em nome da ciência a cada ano. Muitos acreditam que estas experiências sejam indolores e garantam o bem-estar do animal. Ora, será possível aplicar irritantes a sua pele e olhos, causar-lhes dor voluntariamente, viciá-los em drogas e então privá-los das mesmas, matá-los para ilustrar conceitos já bem conhecidos e privá-los de afeto e carinho e ainda assim garantir o seu bem-estar? Obviamente, a resposta é não. Resta então acreditar que ao menos o bem-estar de nossa espécie está sendo garantido com tais testes. Porém, esta última crença também não é verdadeira. A experiência não é nada melhor para o experimentador (homem) do que para o experimentado.



Diferentes Espécies
Os testes com animais partem do princípio de que é possível entender a anatomia e fisiologia humanas através do estudo de outros animais que não o próprio homem. O fato é que os outros animais diferem imensamente do homem em seus caracteres genéticos, histológicos, anatômicos, fisiológicos, imunológicos, emocionais, psicológicos, sexuais e sociais. É por esta razão que existem médicos para humanos e veterinários especializados em outros animais que não o homem. Tão grandes são as diferenças entre cada espécie animal que um veterinário especializado em cães não tem a mesma habilidade de tratar uma vaca quanto aquele especializado nesta última espécie.
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Chega de Choro
A indústria de cosméticos e produtos de uso doméstico (lustra-móveis, amaciante de roupas, etc.) é responsável pelo sofrimento e morte de cerca de 14 milhões de animais por ano em dolorosos experimentos laboratoriais.
Os testes em animais conduzidos para estes propósitos são os mais ultrapassados e desnecessários. Eles envolvem testes como o Draize, no qual substâncias cáusticas são aplicadas aos olhos de coelhos vivos, sendo estes dóceis animais privados de movimentos que interfiram no teste, como coçar o olho com as patas ou contra algum objeto.
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A imobilização é organizada de forma que suas cabeças fiquem separadas do resto do corpo por um obstáculo. Seus olhos são freqüentemente mantidos abertos por um gancho que se aplica à pálpebra e alguns coelhos quebram o pescoço ou a coluna vertebral na tentativa de escapar.
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A progressiva deterioração dos olhos é então registrada pelo experimentador a cada 72 horas, geralmente. O teste se prolonga por até 18 dias e, se o animal sobreviver, ele poderá ser utilizado em outros experimentos. As reações locais ao teste vão de inchaço da pálpebra, inflamação da íris, ulceração e hemorragia até cegueira. Drogas para aliviar a dor raramente são administradas porque estas, segundo os pesquisadores, podem interferir nos resultados dos testes.
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Este teste vem sendo utilizado desde 1944 e é atualmente responsável pelo sofrimento e morte de milhares de coelhos todos os anos, apesar de não prevenir ou curar qualquer tipo de complicação na saúde dos humanos. Saber que um coelho fica cego depois de seus olhos terem sido colocados em contato com xampu anticaspa por 72 horas não ajuda muito. Nós sabemos que não devemos colocar substâncias cáusticas em nossos olhos, basta sentir a dor por si próprio ou que alguém que acidentalmente o fez nos diga que não é uma sensação agradável para que saibamos.
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Outro teste realizado em animais para testar a toxicidade de produtos é o LD 50 (Dose Letal 50), no qual os animais são forçados a ingerir substâncias tóxicas de forma gradativa, até que metade da população estudada (animais) morra envenenada.
Outras variações do teste chegam a matar até 100% da população estudada. Este teste foi elaborado em 1927.

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Estes testes visam proteger as empresas, não os consumidores. Os testes em animais não são requeridos por lei para a aprovação de cosméticos e produtos de uso doméstico. Exige-se apenas que cada ingrediente em um produto cosmético seja adequadamente testado para segurança antes de ser comercializado, ou que o produto traga em sua embalagem um aviso de que sua segurança não foi determinada. Não existe uma exigência particular quanto à natureza do teste. O método a ser utilizado é determinado pelo fabricante, e sua realização é feita quase que exclusivamente com o intuito de defender-se de possíveis ações judiciais por parte dos consumidores.
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Drogas
Mais de 200.000 novas drogas são comercializadas em todo o mundo a cada ano. A maioria destas só pode ser colocada no mercado após ter passado pelo método de pesquisa mais arcaico que existe: a experimentação em animais. Além de arcaico, porque baseia-se na tortura e exploração de animais, este método também é perigoso para a saúde humana, porque seus resultados são pouco fidedignos e muitas vezes levam a conclusões erradas.
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O FDA (Food and Drug Administration) é o órgão do governo americano que regulamenta os procedimentos (estudos clínicos, laboratoriais, etc.) para a aprovação de drogas, cosméticos, aditivos alimentares, etc. Mais da metade das drogas aprovadas pelo FDA entre 1976 e 1985 causaram sérios efeitos colaterais e tiveram que ser reclassificadas ou retiradas do mercado.
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As reações a determinadas drogas variam até mesmo entre dois humanos e por isto são dificilmente estimadas por testes em animais. Practolol, uma droga que foi aprovada por testes em animais causou cegueira em humanos e foi retirada do mercado. O arsênico, que é cancerígeno em humanos, não foi capaz de causar câncer em outras espécies. O Chlomiphene diminui a fertilidade em outros animais mas induz a ovulação em humanos. A droga antiinflamatória fenilbutazona é degradada nove vezes mais rápido em humanos do que em macacos rhesus.
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Da mesma forma, foram conduzidos experimentos em animais para pesquisar novas drogas que reduziriam os efeitos do derrame. Das 25 drogas que demonstraram resultados em roedores, sequer uma demonstrou resultados em pacientes humanos.
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A droga dietilstilbestrol (DES), testada e aprovada em animais para prevenir problemas na gestação, provou ter efeitos cancerígenos e teratogênicos (malformação congênita) quando testada em humanos. Muitas drogas para a artrite que foram aprovadas nos testes com animais, incluindo o Feldene , foram retiradas do mercado porque elas causaram severos efeitos colaterais quando administradas em humanos, levando até à morte. No Brasil, esta droga ainda é utilizada.
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Cientistas estavam apostando nos testes com animais para demonstrar uma correlação entre o tabagismo e o câncer de pulmão. Estes testes falharam em demonstrar esta correlação, que já era óbvia pela observação de dados humanos, resultando em uma grande demora em trazer esta informação a público.
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Além dos riscos de reações adversas quando da utilização por humanos, os testes em animais podem ainda prevenir que drogas potencialmente úteis sejam aprovadas para uso. Se a penicilina não existisse, ela provavelmente nunca seria aprovada pelas regulamentações atuais. Quando administrada em cobaias (porquinhos-da-índia), esta droga mata os animais, o que a teria descartado para uso em humanos. O ácido acetilsalicílico (aspirina) causa a morte em gatos, enquanto a morfina, um depressor do sistema nervoso central no organismo humano, atua como um estimulante do mesmo sistema em gatos, cabras e cavalos.
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Tão reconhecida é a ineficácia dos testes em animais em estimar efeitos de substâncias no organismo humano que os cientistas e a indústria freqüentemente ignoram os resultados de tais testes . Foi o que aconteceu com a droga para acne Accutane, que foi comercializada a despeito do fato de que ela havia demonstrado efeitos teratogênicos em ratos. As letras miúdas da bula traziam um pequeno aviso, mas neste caso os testes em animais refletiam a verdade. Agora, centenas de crianças nasceram com má formações causadas pela droga. Apesar disto, a droga continua no mercado.
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Apesar da comprovada ineficácia e nocividade dos testes em animais, os órgãos regulamentadores continuam a exigir que estudos em animais sejam realizados antes que uma nova droga possa ser colocada no mercado.
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Alternativas
O teste Draize pode ser substituído por testes mais modernos e humanos. A empresa In Vitro International, localizada na Califórnia, desenvolveu o método Eytex, que simula a irritabilidade dos olhos através de um sistema de alteração protéica. Uma proteína vegetal, extraída de uma leguminosa, imita a reação da córnea quando exposta à substâncias estranhas. Quanto maior for a irritabilidade, mais opaca a solução se torna. A fórmula Skintex, também desenvolvida pela mesma empresa, é feita a partir de abóboras e é utilizada para imitar a reação da pele humana à substâncias estranhas. Ambos recursos podem ser utilizados para testar a toxicidade de mais de 5.000 substâncias diferentes.
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Clonetics, uma empresa de San Diego, na Califórnia, desenvolveu o EpiPack, o primeiro produto comercial a conter clones vivos de células humanas. Estas células podem ser expostas a várias substâncias em diferentes diluições para serem então analisadas.
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Culturas celulares e teciduais podem ser desenvolvidas em laboratório a partir de uma única célula humana ou animal. Estas culturas podem ser utilizadas para enxertos de pele em pacientes queimados e podem também ser utilizadas para substituir animais em testes .
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A corrosibilidade de materiais pode ser testada em coelhos vivos. Recentemente, um novo método que substitui esta prática bárbara foi aprovado pelo Departamento de Transportes dos Estados Unidos. O Corrositex é um método moderno, in vitro, que utiliza culturas celulares para testar a corrosibilidade de materiais. Como outros métodos de cultura celular, o Corrositex é mais barato do que o uso de animais vivos, além de ser mais humano.
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Uma Proposta Mais Sana
O sofrimento de animais não é necessário para o progresso da ciência. Tão pouco são necessários tantos testes de qualquer natureza que sejam. A necessidade de se desenvolverem novos cosméticos e novas drogas advém da deterioração do estado de saúde da população. Hoje, muitos fatores que contribuem para a ocorrência de problemas na saúde dos indivíduos são conhecidos, sejam estes fatores ambientais, nutricionais, econômicos ou sociais.
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Sabe-se que o tabagismo pode causar o câncer, mas ainda assim as pessoas continuam a fumar e exigem do estabelecimento científico uma solução para o problema. Sabe-se que fatores dietéticos (consumo excessivo de lipídios, sódio, etc.) levam à ocorrência de problemas cardiovasculares, por exemplo. Ao invés de investir em propostas profiláticas como, por exemplo, educação nutricional real, o que vai muito além de desenhar pirâmides, os investimentos na saúde são destinados ao desenvolvimento de novas drogas e cirurgias que pretendem "tratar" aqueles que adotaram hábitos alimentares inadequados.
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Ao invés de colaborar para o desenvolvimento de novas tecnologias que garantam um uso racional dos recursos naturais do planeta, o que propiciaria uma maior disponibilidade de alimentos para a população mal nutrida, investe-se em energia nuclear (uma das invenções mais potencialmente nocivas do homem) e no desenvolvimento da agropecuária, prática que é contraproducente ao objetivo de fornecer mais alimentos à população - pelo contrário, a agropecuária é a causa da crise mundial de alimentos por utilizar os recursos naturais de forma irracional, conforme discutiremos em números futuros.

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É hora do homem pôr em prática o que a ciência já sabe e deixar de exigir dela soluções para quaisquer problemas que lhe praza criar. A idéia de que a ciência é unipotente e pode portanto encontrar soluções para o que quer que lhe seja proposto pode estar levando o homem à um caminho sem saída, pois no momento em que ele descobrir que a ciência está longe - e talvez nunca chegará nem próximo - de ter todas as soluções aos problemas por ele criados utilizando os animais como se fossem sua propriedade, esgotando os recursos de seu único lar (a Terra), e fazendo de suas vontades alimentares, econômicas e sociais impulsos inconseqüentes, ele poderá estar em uma posição da qual a saída já não mais está acessível.
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De nada servem novos conhecimentos sobre a direção do movimento de um elétron de um único átomo quando ainda não compreendemos, ou não demonstramos ter compreendido, a maneira com que nossas relações com coisas tão mais gigantescas, como um abacate, uma borboleta ou toda uma espécie animal que utilizamos para satisfazer "necessidades" ilegítimas, podem afetar nossa sobrevivência sobre a superfície da Terra.
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George S. G. Guimarães

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